Relato KAAPOR. da Fronteira Leste da Amazônia

Posted: maio 29th, 2015 | Author: | Filed under: Entrevista, Geral | No Comments »

Entrevista realizada durante manifestação KAAPOR em julho de 2014, com Capitão [Cacique] O. sobre as ações de auto-fiscalização do território empreendidas pelos indígenas, bem como sobre a reação dos madeireiros expulsos. Na pauta da manifestação, os KAAPOR exigiam da FUNAI, do IBAMA e da Polícia Federal a construção de postos de fiscalização permanentes nas entradas da TI. Os postos nunca vieram e os KAAPOR seguirão com seu processo de auto-defesa. Com o descaso do governo federal, e cercados por 7 municípios cuja principal atividade econômica é a extração de madeira, os indígenas se encontram numa guerra desproporcional. A tensão só aumenta. No dia 26 do 4 de 2015, Eusébio KAAPOR foi assasinado, se existe uma coisa a se dizer sobre o caso é que o mesmo não foi uma surpresa. A fronteira leste da Amazônia é um barril de pólvora para o qual o governo tem fechado os olhos. Temos que abrir os nossos.

Abaixo segue o texto de Ruy Sposati, da Terra Indígena Alto Turiaçu (MA) e Piero Locatelli

Eusébio Ka’apor e seu primo viajavam de moto quando foram abordados por dois homens encapuzados e armados em uma encruzilhada. Os indígenas seguiam o caminho de casa, cruzando os povoados que cercam a Terra Indígena Alto Turiaçu, no Maranhão. “Tava chovendo muito, quase escuro”, relembra P (os nomes dos indígenas foram ocultados). Ao ouvir os gritos dos pistoleiros, ele resolveu acelerar. “Achei que não ia atirar, mas o cara atirou: tá!”, diz, simulando o som do disparo que atravessou o corpo de Eusébio, na garupa, e pegou de raspão nas costas de P.

A moto percorreu cerca de 80 metros, até que ele caiu. “Tá doendo”, foram algumas das últimas palavras de Eusébio. Ainda vivo, foi carregado até um povoado próximo. P foi então pedir socorro na aldeia Ximborendá. Com M, filho de Eusébio, usaram um caminhão para carregar o corpo, “espirrando sangue”, e correram para o hospital no município de Zé Doca. Alguns quilômetros antes de chegar na cidade, o Ka’apor faleceu.

P é a única testemunha da morte de Eusébio. O crime ocorreu no dia 26 de abril, na zona rural do município de Maranhãozinho, a três quilômetros da entrada da aldeia Ximborendá. Na manhã seguinte, na sede da cidade de Zé Doca, seu filho conta que foi abordado por um proprietário de serraria. “Ele disse que já sabia da morte e veio dizer que tinha outras pessoas pra morrer”, relata M. “E ainda reclamou que não consegue mais madeira lá”.

O madeireiro se referia à terra indígena dos Ka’apor, que sofre constantes invasões para o roubo de árvores. Cansados de esperar pela ajuda do Estado, desde 2013 os índios resolveram colocar a própria vida em risco para expulsar os madeireiros. Eusébio era uma das lideranças deste movimento.

Essas ações foram batizadas pelos indígenas como ‘missões’. Sempre dentro de sua terra, eles seguem a trilha dos invasores, tomam seus equipamentos, queimam seus veículos e expulsam os madeireiros (que têm que sair a pé). As trilhas por onde as árvores eram retiradas são fechadas. Os pátios, antes usados como base pelas serrarias, passam a ser ocupados por novas aldeias Ka’apor que levam o nome de Kaar Husak Ha – “áreas protegidas”.

Embora a investigação sobre o assassinato ainda esteja em andamento, são muitos os elementos que levam os indígenas a suspeitar dos madeireiros. Além de terem sido abordados por um proprietário de serraria na manhã seguinte ao crime, outros dois Ka’apor sofreram um atentado parecido: uma semana antes do assassinato, no dia 19, dois indígenas foram abordados por homens encapuzados e armados enquanto andavam de moto. Os pistoleiros, tomaram o veículo, espancaram um dos indígenas e ordenaram que corressem para a mata. A poucos quilômetros do local, os agressores dispararam três tiros – um deles, no tanque da moto, que foi deixada na estrada.

Ex-cacique de Ximborendá, a maior das dezoito aldeias na terra Alto Turiaçu, Eusébio perdera o posto quando os Ka’apor substituíram o cacicado por conselhos gestores. Mas ainda era uma liderança importante. Sua morte assustou os dois mil indígenas que vivem nos 530 mil hectares do território indígena – uma das áreas mais conservadas do Maranhão.

A sobrevivência dos  Ka’apor está diretamente relacionada à floresta. “Nós não dependemos da cidade, nós dependemos da mata. Por isso o nome é Ka’apor: ‘nós somos da mata’. E a mata também depende da gente”, diz J, outro indígena que falou sob anonimato. Ainda triste pela morte de Eusébio, ele aponta uma castanheira e explica por que as missões não podem parar: “esta árvore já estava aqui antes de eu nascer e antes do meu pai nascer. Por isso que lutamos. Nós podemos morrer, mas nossos filhos sempre vão ter a floresta”.

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Entrevista com o Munduruku Ademir Kaba durante a II Assembléia do Movimento Ipereg Ayu

Posted: fevereiro 12th, 2014 | Author: | Filed under: Entrevista | No Comments »


Em novembro de 2013 aconteceu na aldeia Restinga, sudoeste do Pará, a II Assembléia do Movimento Ipereg Ayu. Durante o encontro foram reunidos cerca de 400 indígenas de 62 aldeias da etnia Munduruku, que em 4 dias de encontro debateram e decidiram os rumos do Movimento Munduruku para os meses que seguiram.  ~ Saiba mais ~

Durante o encontro, Ademir Kaba, membro do Movimento Indígena Munduruku Ipereg Ayu, concedeu uma entrevista exclusiva para o Amazônia em Chamas. O indígena é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará, campus Belém, cidade onde viveu por mais de 10 anos, até decidir largar a vida na capital e voltar às aldeias, lutando e resistindo ao lado dos parentes.

No vídeo Ademir traz questionamentos sobre os diversos fatores que levam ao enfraquecimento da cultura indígena, como tecnologia, nacionalidade, religião e o modelo de educação formal implementado nas comunidades. Ele também enfatiza a importância do fortalecimento e valorização dos costumes tradicionais como forma de resistência aos grandes projetos planejados para a região, os quais atingem diretamente o povo Munduruku.

As imagens foram registradas pelo Amazônia em Chamas e pelos próprios Munduruku ao longo de quase um ano de luta contra a instalação de grandes projetos na Amazônia.

Os registros iniciaram em maio de 2013, quando os Munduruku ocuparam o canteiro de obras de Belo Monte, em Altamira (PA). A ocupação tinha como objetivo exigir a não instalação de projetos hidroelétricos no Tapajós e prestar solidariedade aos “parentes” de outras etnias afetadas pela construção da UHE Belo Monte, entre eles Xipaia, Arara da Volta Grande e Kayapó.

Em quase um mês de paralisação, entre idas e vindas na região, 10 cartas foram encaminhadas ao Governo para exigir a presença de Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. O Ministro não compareceu ao local, fazendo com que os indígenas fossem à Brasília ao encontro de Gilberto, onde deixaram claro que não aceitavam a instalação de nenhum projeto que afete comunidades indígenas e tradicionais da Amazônia.

Os Munduruku também questionaram o modelo que consulta prévia implementado, o qual não lhes dá o direito ao veto à instalação de mineradoras e usinas hidrelétricas, e exigiram que seus direitos sejam respeitados.